A crise na Ucrânia impacta Portugal?

15-02-2022

Este é um braço de ferro que se estende há muitos anos. Desde a queda da URSS que a Rússia, pelos seus líderes, sente-se diminuída e impelida a aumentar a sua esfera de influência a Ocidente através dos países outrora membros da União Soviética.

A Rússia atual é muito diferente da URSS. Os seus cidadãos já não se interessam - se é que alguma vez se interessaram - que o seu país seja a potência enaltecida durante a Guerra Fria. Esses tempos vão longe. A razão do problema atual é outra e tem que ver com a liderança do país em especial com o seu presidente, sem sombra para dúvida, uma pessoa com características peculiares e objetivos desenquadrados com o que um presidente deve procurar para o seu povo.

Economicamente a Rússia não é uma potência. O seu PIB ocupa o 11º lugar mundial, ligeiramente acima do Brasil sendo apenas 7% do dos Estados Unidos da América. Se analisarmos o PIB per capita a situação é ainda pior com a Rússia a ocupar o lugar 85 e com menos de metade do PIB per capita de Portugal. Nem tudo é mau, contudo. A Rússia tem grandes reservas de moeda estrangeira e grandes reservas de recursos naturais que lhe permitem suportar sanções económicas do resto do Mundo, ou melhor dizendo, dos países ocidentais.

O que mais me preocupa neste braço de ferro entre a Rússia e a Ucrânia e seus aliados são as pessoas. O povo de ambos os países que já está a sofrer e sofrerá ainda mais se uma guerra eclodir. Depois disso existem as questões ambientais que podem ser esquecidas enquanto os países aliados tentam encontrar soluções diplomáticas para esta situação. Por fim existem as questões económicas sobre as quais este pequeno texto se versa.

A pergunta que faço e que pretendo brevemente explicar é: A crise na Ucrânia impacta Portugal?

Imediatamente posso responder que sim; impacta. E a medida do seu impacto vai ser tanto maior quanto mais intenso e agudizado se tornar o conflito.

Portugal é dependente do mercado externo no que se refere a uma parte significativa da energia e de bens agrícolas. Em relação à energia creio que não há muito a dizer. Embora Portugal não compre gás à Rússia, qualquer escalada do conflito fará com que o seu preço suba e invariavelmente iremos sofrer esse revés de aumentos de preços - o mesmo com o petróleo e todos os derivados. Por outro lado, sendo a Europa central muito dependente do gás russo e se houver corte de fornecimento pela Rússia então esses países terão que procurar soluções de fornecimento noutros países. Podemos esperar que passem a comprar, principalmente, gás natural liquefeito que é fornecido em navios cisterna uma vez que não são suficientes os gasodutos que ligam o Norte de África e que abastecem Portugal, ao resto da Europa central e de Leste.

Mais preocupante é a questão de alguns bens alimentares. A Rússia é um dos maiores produtores de trigo do Mundo e embora as compras portuguesas de trigo russo sejam irrelevantes, o preço desta commodity aumentará o que causará danos aos portugueses. O mesmo de passa com outros bens alimentares básicos como o óleo de girassol - cuja Ucrânia é um importante produtor -, os óleos de palma e soja - cujos preços se ajustarão em subida à falta de girassol -, entre muitos outros bens. Não nos podemos esquecer que a União Europeia é o maior importador de bens alimentares da Ucrânia.

Portugal, como toda a Europa e outros países do Mundo, irá sofrer com uma invasão da Ucrânia pela Rússia. Claro está que o maior sofrimento será dos povos desses países e essa deve ser a nossa maior preocupação. Seguir-se-ão, contudo, outras consequências que afetarão diretamente os portugueses. Não nos esqueçamos que o momento atual é por si complicado e vai agudizar-se. A inflação a subir, as taxas de juro no mesmo caminho - o medo de alguns países europeus em manterem a taxa de inflação abaixo dos 2% é incrível e trará consequências principalmente para as famílias portuguesas altamente endividadas - e por conseguinte o poder de compra a diminuir.

Esperam-nos tempos estranhos.

Espero realmente que os diplomatas estejam à altura do desafio, para bem de todos.

Um abraço e obrigado por ter lido este pequeno desabafo.