Aborto, biotecnologia e Jesus
Antes de mais, um esclarecimento. Tudo o que escrevo é exclusivamente a minha opinião, apenas minha, com base nas minhas convicções, estudos e reflexões, muitas vezes recorrendo à sátira. Nenhuma das minhas opiniões pode ser atribuída a terceiros ou a qualquer instituição a que esteja ligado. Prezo a liberdade de expressão, por mais dura que possa ser, sem, contudo, pretender ferir ou julgar quem quer que seja.

Hoje venho reflectir acerca do aborto, mas não de uma forma simplista numa escolha entre a sua penalização ou despenalização. Antes, analisando de forma fria e crua do que realmente se trata, de que modo é que a evolução da biotecnologia impactará o futuro das crianças porvir e as palavras que Jesus nos deixou.
Dividirei este texto em dois momentos para que não se torne muito longo.
O aborto é a morte de uma criança no ventre da sua mãe – à luz da ciência um feto não é uma criança até certo momento, porém, esta posição é discutível, desde logo porque não há realmente uma forma de provar que tal seja verdade, uma vez que não temos forma de garantir que um feto não tem consciência, mas também porque, sendo milagre e bênção de Deus, sendo seu filho amado, tem alma e lugar na vida terrena. Tantas vezes ocorre de forma natural, infelizmente. Demasiadas vezes ocorre de forma intencional. Em relação aos abortos espontâneos e naturais só tenho a lamentar e dar um abraço de coragem a quem os sofre. Em relação aos abortos intencionais, deixarei aqui a minha visão acerca do assunto.
Qualquer acto que provoque dolo a alguém é condenável, e por isso, sou absolutamente contra a pena de morte e o aborto, bem como, naturalmente, qualquer crime que provoque dolo a um semelhante. Se quanto à pena de morte entendo que deve ser banida seja qual for o crime cometido, em relação ao aborto entendo que nem eu nem ninguém tem o direito de o proibir. Caberá à gestante tomar tal decisão e ao profissional de "saúde" aceitar fazê-lo, com base nas suas consciências e apenas Deus os poderá julgar. Portanto, ainda que seja contra o aborto, entendo que não me cabe a mim impedir que alguém o faça desde que de livre vontade. Ou seja, ainda que considere o acto de abortar moralmente errado, não considero que todos os actos moralmente errados devam ser julgados à luz da justiça do homem.
Sucede que vivemos num período altamente libertino. É que permitir o aborto, não julgando criminalmente quem o faz de livre e espontânea vontade, é bastante diferente de legislar tornando-o fácil e acessível de um modo que incentiva o que por vezes parece ser o melhor caminho, ou pelo menos o mais fácil.
O estado americano do Massachusetts pretende aprovar uma lei que retira o limite temporal de desenvolvimento do bebé no ventre da gestante para que se possa abortar. Junta-se assim a um punhado de estados e países – poucos, felizmente, mas ainda assim demasiados – onde, por lei, é possível abortar até ao momento imediatamente anterior ao nascimento. Com certeza que há regras que "justificam" a prática, nomeadamente o risco para a gestante, e que têm de ser aprovadas por uma equipa de profissionais: preservação da vida ou saúde física/mental da paciente, anomalia fetal letal ou diagnóstico fetal grave incompatível com vida sustentada fora do útero sem intervenções extraordinárias. Contudo, a proposta de lei que pretende alterá-la, para que o aborto possa ser realizado por um médico com base no seu juízo profissional.
Isto levanta várias questões. Abortar é ou não é um homicídio? Tem justificação em casos específicos ou deve ser totalmente liberalizado? A vida da gestante tem mais valor do que a do bebé? Até que ponto é que alguém tem o direito de tirar a vida a outro?
A cada um caberá a sua sentença. E cada um fará a sua análise a estas e outras perguntas que um tema tão complexo levanta. Quanto a mim volto a escrever o que escrevi antes: sou contra o aborto, mas entendo que nem eu nem ninguém tem o direito de o proibir. Ao leitor que não conheça os métodos utilizados para esta prática, sugiro que pesquise quais são e como funcionam. Altera: todos são horríveis e altamente perversos.
Em duas situações específicas entendo que uma mãe e um pai se questionem se o aborto é a solução que devem tomar, não a melhor, mas a menos má: em caso de malformação extrema do bebé e em caso de risco de vida para a mãe. Ainda que entenda as dúvidas, estou convencido de que o aborto não é a melhor solução, ou melhor dizendo, a solução menos má.
Uma criança, um adolescente e um adulto necessitam de amor. Todos necessitamos de amor. Uma criança especial, que tenha nascido ou adquirido patologias severas ainda mais necessita de amor. Assim, ainda que o risco de o bebé nascer com uma patologia severa exista, não deve levar a que se aborte. Por um lado, porque é um dom de Deus, uma vida com valor inestimável e que deve ser amada de forma incondicional e tratada com dignidade. Mas também porque Deus Pai está atento, e os milagres acontecem. Quanto à vida da mãe, por mais terrível que seja esta escolha, estou convencido de que uma Mãe, uma verdadeira Mãe, não optará pela sua vida em detrimento da do seu filho. Isto porque uma mãe é amor, e o amor é capaz de actos dificilmente explicáveis de um ponto de vista racional.
É aqui que paro hoje, nesta primeira parte do texto, não sem antes esclarecer o porquê de ter utilizado as palavras gestante e mãe ao longo do texto em momentos diferentes. Uma gestante é qualquer mulher que carregue um bebé no ventre. Uma mãe é muito mais do que isso. Uma mãe é amor; amor tão incomensuravelmente grande que dá a vida pelo seu filho; é um amor heroico.
"Ora, se vós, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem!" - Mateus 7:11 e muito semelhante também em Lucas 11:13