Engenharia genética: um problema?

A bioengenharia não é nova. Na verdade podemos assumir que existe há séculos, de forma rudimentar, é certo. Desde que se tenta, de algum modo, alterar a biologia, seja através da aplicação de uma prótese ou através da edição genética, falamos de bioengenharia. O que me preocupa é um ramo específico da bioengenharia: a engenharia genética.
No meu livro sobre Inteligência Artificial, abordei o tema da engenharia genética de modo bastante sucinto. Escrevo que a IA terá impactos significativos na engenharia genética (utilizarei a sigla EG para me referir a este ramo da bioengenharia) e que isso levantará problemas éticos a que temos que estar atentos. Pois bem, parece que já não estamos tão longe quanto se pensava.
Na década de 2010 desenvolveu-se um sistema de edição genética que veio revolucionar a EG: trata-se da técnica CRISPR. Esta técnica permite manipular o ADN. E tanto pode ser utilizada com propósitos nobres, como impedir que uma criança desenvolva uma doença autoimune a que estará vaticinada se nada for feito, como pode ser utilizada para escolher a cor dos olhos do futuro filho.
Entendo que a edição genética de um ser humano, per si, envolve questões éticas complexas e que, ainda que seja feita com objectivos nobres como evitar uma doença futura, é altamente ... A minha posição baseia-se em vários pontos que considero serem mais prejudiciais do que benéficos. A saber (não estão por ordem de importância):
- A EG aumenta as desigualdade a partir do momento que não está acessível a todos
- Desconhecemos os efeitos de longo prazo da EG quer para o ser "editado" como para o futuro da espécie
- O corpo humano é altamente complexo e muito eficiente, mas o nosso conhecimento acerca das suas complexidades é limitado
- Daí que qualquer edição do ADN poderá provocar problemas sérios ao "editado" e à espécie
- Corremos o risco de exagerar nas edições com o objectivo de criar seres perfeitos, altamente eficientes e inteligentes, numa espécie de eugenia
- Deontologicamente não aceito querermos brincar a Deus
Sam Altman está a dedicar-se ao processo de edição dos embriões de modo a "aperfeiçoar" a futura criança, através da empresa Conception. Mas ele não é o único, pelo contrário, apenas um num meio que pretende "aperfeiçoar" a espécie. Neste momento já há até um movimento - nos EUA, onde mais? - a favor das edições genéticas.
Este movimento é um movimento pró-natalidade. Mas se antes os movimentos pró-natalidade estavam intimamente ligados à religiosidade dos casais, neste caso trata-se mais de uma espécie de movimento idealista com objectivo de tornar o mundo repleto de seres altamente inteligentes e fisicamente aptos. Portanto, por mais que se negue - e eles negam - trata-se de uma eugenia moderna. Se no passado Hitler e outros que tais tentaram elevar a raça pura através da eliminação dos restantes, neste momento tentasse elevar a raça pura através da EG.
Entendo que não devemos brincar a Deus. Não só porque nos devemos limitar à nossa insignificância, mas também pelos riscos que daí surgirão. É que já não se trata de pedir para o filho nascer com olhos azuis - altamente condenável, desde logo -, mas de o tornar um super herói desenhado à medida das ideologias dos pais.
O que lhe parece esta ideia?