Bipolaridade política - modelo económico obsoleto

03-03-2021

Algo que me deixa muito impressionado é a bipolaridade política. Um dia são verdes e no outro querem construir projetos megalómanos que deitam por terra o que se disse no dia anterior.

Num dia desta semana, o primeiro-ministro de Portugal, em frente a uma plateia de distintos membros da eurocracia, defendeu, e bem, que o atual modelo económico está obsoleto e que tem que ser redesenhado com base numa encomia verde, circular e sustentável. Dias antes e dias depois, falou de injeções maciças de dinheiro para manter os mesmos negócios, da mesma forma, e assumiu-se que o segundo aeroporto de Lisboa é de importância elevada para o bem da economia nacional.

Mas afinal, será que estas duas visões se conjugam ou são opostas?

A meu ver são opostas pela simples razão que o atual modelo económico está de facto obsoleto e tende a piorar o estado atual da sociedade e do ambiente se continuar a ser seguido.

Desde logo porque se assume o PIB como métrica fundamental. Fala-se em crescimento como uma obrigação e uma necessidade políticas quando, em boa verdade, por si, nada trás que realmente se aproveite.

Em segundo porque, quer queiramos assumir a bem ou tenhamos que assumir a mal - que é o que nos predispomos a receber - o modelo económico tem que mudar de tal modo que o que conhecemos hoje como projetos essenciais deixarão de o ser em pouco tempo: os aeroportos são um deles.

Ora, se a métrica utilizada para medir a evolução de uma sociedade e de um país está mal escolhida e se o modelo económico está obsoleto, então temos que mudar o rumo; e rapidamente.

Tudo voltará a ser como dantes? Espero bem que não. Se assim for corremos o risco de passar por mais uns anos de bonança - se medidos com base na atual métrica - e deitar por baixo o momentum que está a ser desenvolvido em prol da economia verde.

Então e vamos deixar as empresas cair? Receio que temos que ser capazes de assumir que algumas empresas não quererão ou não serão capazes de se adaptar à nova verdade que emergirá. Às que não conseguirem será melhor deixá-las seguir o seu caminho.

E as pessoas? Têm que ser apoiadas; e muito. Temos que assumir uma nova economia focadas nas pessoas e para o seu bem estar. Para isso temos que ser capazes de assumir que a dívida e o défice vão aumentar e, provavelmente, manter-se-ão assim por muitos anos.

E isso não é um problema? Será um problema se continuarmos a assumir os mesmos paradigmas económicos - como o homo economicus que pensa sempre de forma eficiente e que escolherá uma bolacha maria com base na razão e não na emoção. Porém, se assumirmos que, em última análise, quem cria o dinheiro são os bancos centrais e não os investidores abutres que delapidam os países, em especial os mais necessitados, então não será problema algum.

O que começou por ser um desabafo sobre o que o sr António Costa diz num dia e lhe oposta no outro terminou sendo um pequeno desabafo sobre como vejo as coisas.

Perdoe-me qualquer leitor a quem não lhe agrade o que escrevo, principalmente se estiver numa situação que não muda porque não quer ou porque não sabe. Bem, se estiver no primeiro caso, não lhe peço perdão porque não necessita.

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