Carta a amigos

Primeiramente um disclaimer. Uns lerão esta carta e refletirão concordando na totalidade, em parte ou discordando absolutamente. Outros ignorarão porque não lhes apetece ler algo que escrevi. Mas haverá uns que pedirão a um software que lhes resuma o texto. Os últimos são cretinos digitais, termo consagrado no livro de Michel Desmurget - pese embora o autor estivesse preocupado essencialmente com a nova geração e não com os adultos. Espero que o número de cretinos seja diminuto. É porque é muito melhor estar rodeado de pessoas que não concordam comigo e até que não gostam de mim e me criticam do que por seres incapazes de discutir ideias.
Amigos,
Porque esta carta só pode ser escrita a quem se ama, dirijo-me a vós como amigos. E ainda que para um pecador como eu tal missão seja impossível, enveredarei todo o meu coração e intelecto para cumprir o novo mandamento de Jesus: "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.", João 13, 34-35.
Se vos escrevo esta carta é porque me preocupo. E ainda que não sejais dotados de menos inteligência do que eu, talvez alguns de vós não estejais atentos, pelo que vos escapam importâncias.
Uma revolução aproxima-se. As suas pedras estruturais foram lançadas há muitas décadas, mas a velocidade que lhe está a ser exigida é estonteante. Porém, antes de chegarmos ao cerne da questão, ao ponto fulcral desta carta, parece-me importante uma pequena reflexão acerca do estado actual da sociedade ocidental.
A nossa sociedade está doente. Quando a doença se iniciou não é claro, mas de há alguns anos para cá o diagnóstico tem vindo a piorar a um ritmo alarmante. A nossa sociedade está cada vez mais doente: os valores fundamentais da família - que muitos querem destruir -, da liberdade individual - que muitos confundem com libertinagem -, do respeito pelos outros, pelos mais velhos, mas acima de tudo pelas crianças - que muitos pretendem doutrinar na mentira, no facilitismo, na ideologia de género, na libertinagem e na falta de valores -, da valorização do trabalho enquanto pilar fundamental da vida terrena - que muitos querem fazer parecer que vivemos numa sociedade de classes esclavagistas -, da fé - que muitos querem destruir recuperando a famosa frase de Marx -, e de tantas outras que nos elevam enquanto sociedade estão a desmoronar-se. Não estarão totalmente enganados, até certo ponto, os que caírem na tentação de me chamarem de conservador de direita, talvez até um retrógrado que abomina o progresso. De facto, sou um alvo a abater para os ideologistas de esquerda e os socialistas já que sou um homem branco heterossexual, casado e com quatro filhas, filho orgulhoso de Deus que se esforça para viver na retidão moral da fé cristã.
Repito: a nossa sociedade está doente. E ainda que com pequeno esforço diagnosticar a causa e encontrar uma cura não sejam tarefas hercúleas, a verdade é que nos mantemos impávidos e serenos numa inação angustiante. Portanto, duas perguntas me surgem. Estaremos tão alheados da realidade que somos incapazes de perceber o estado a que chegamos? Se não, significa que concordamos com o rumo que levamos? No meu caso nem estou alheado nem concordo com o rumo que a sociedade tem vindo a seguir e, por isso, não me calarei até ter voz e discernimento. Espero, genuinamente, que ainda se vá a tempo de contrariar a doença e curar o paciente.
Findo este parêntese, foquemo-nos no ponto fulcral desta carta de preocupação que apenas se escreve aos amigos.
Há cerca de dois anos, no meu livro "Inteligência Artificial, bênção ou maldição", alertei para os que me pareciam ser os dois principais riscos da evolução desta tecnologia revolucionária: a estupidificação do ser humano e a singularidade. Infelizmente, mantenho a minha previsão e hoje ainda com mais convicção do que há dois anos.
Quanto ao primeiro é claro e visível que estamos mais estúpidos. De tal modo é real que nos alheamos dos problemas que nos rodeiam, bebendo informação de fontes dúbias, acreditando em vídeos manipulados numa absortíssima repugnância. Nunca se viu uma sociedade com tanta gente estúpida. Nunca se viu uma sociedade com tantas crianças absortas, incapazes de brincar, de ler, de compreender aritmética simples, de escrever correctamente, mas craques no zapping do tiktok. Nunca se viu uma sociedade tão imbecil e tão doente. - Sugiro a leitura do ensaio de Carlo M. Cipolla, "As leis fundamentais da estupidez humana".
Quanto ao segundo não sou capaz de dizer se já lá chegamos, se estamos longe, a poucos meses de distância ou se algum dia lá chegaremos. O que sei é que um sem número de sinais estão à vista de todos, quer dizer, dos que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir. Resumirei alguns sinais:
- Proliferação massiva de sistemas gratuitos de IA que têm um propósito claro: treinar os algoritmos;
- Fuga de um software da OpenAi que estava numa SandBox;
- Mentes brilhantes, e com mais informação do que nós, a alertarem para os perigos da tecnologia, a sugerirem a criação de regras e legislação fortes enquanto se prepararam para o cataclismo - um bilionário da tecnologia a viver como um ermita: será estúpido ou sabe o que aí vem?
Sendo estas as minhas duas principais preocupações gerais com a revolução que estamos a viver, tenciono aprofundar até ao mercado de trabalho - embora não me preocupe directamente comigo porque sei o caminho que quero e que devo tomar.
Mantendo-se o ritmo de evolução tecnológica que levamos, e assumindo que tal é possível de um ponto de vista técnico, é bastante provável que o trabalho passe a ser opcional. O dinheiro, se for necessário - se não atingirmos o ponto em que esperaremos em filas comunitárias para receber o pão nosso de cada dia -, virá de um rendimento básico universal (RBU) atribuído a todos. Talvez a "Utopia" de Thomas More, que talvez tenha inspirado Marx, Engel e os modernos socialistas do iPhone, se torne realidade. A mim, porém, parece-me mais provável que Orwell, no seu 1984, esteja mais próximo - não literalmente, mas com a diferença de não ser necessário trabalhar.
Quanto tinha 18 anos e me cruzei com os livros de Keynes, as suas ideias fascinavam-me. Creio que o dito que diz que se não se é socialista aos 20 anos é porque não se tem coração, mas se se mantém socialista aos 40 anos é porque não se tem inteligência, é, de facto, verdadeiro. Duas ideias, no entanto, ficaram-me impressas: que a longo prazo estaremos todos mortos - embora refletindo não me sirva a razão pela qual ele o escreveu - e que a evolução tecnológica libertaria mais tempo para o ócio - pese embora se estivesse a referir aos avanços tecnológicos, essencialmente mecânicos, da primeira metade do século XX e não à revolução que a inteligência artificial (IA) está a trazer. Goste-se ou não de Keynes, é certo que disse coisas acertadas, como estas duas.
A ideia de mais tempo de ócio é encantadora e, parece-me, atraente a todos. O grande problema é que o ócio de Keynes não é como o nosso. Enquanto que Keynes vislumbrava mais tempo para ler, pensar, refletir e conviver, para a maioria actual mais tempo de ócio resume-se a mais tempo agarrados a um pedaço de metal com transístores e impulsos eléctricos que nos embrutecem o cérebro e a alma. Pensar? Para quê se temos o ChatGPT - não resisti à rima fácil.
Parece-me a mim que com um RBU e com o trabalho a ser uma actividade opcional, o acentuar da estupidificação será inevitável - sugiro o filme Idiocracia, uma comédia bastante estúpida, mas que pode muito bem ser uma profecia. E com isto até mesmo o atingimento da singularidade deixará de ser um tema relevante. Mas não é este um sonho tornado realidade? Não! Mil vezes não! É antes um pesadelo que teima em querer tornar-se realidade.
O processo é o seguinte. Como a IA será capaz de realizar as tarefas processuais e burocráticas, de investigação, de análise de dados, de escrita de código e tantas outras, deixaremos de ter empregos nestas áreas. Posteriormente robôs humanoides tomarão conta das fábricas e de actividades braçais. E se não há trabalho, mas a economia não sobrevive sem trocas comerciais, a solução será que cada indivíduo receba o RBU. Há quem sugira que nem dinheiro será necessário. Certamente que nesse momento não haverá papel-moeda sendo tudo digital, mas a ideia de não haver sequer uma moeda de troca deixa-me ainda mais preocupado já que implica necessariamente um comunismo tecnológico.
Ora, se recebemos para não trabalhar, simplesmente porque não há tal necessidade, o que parece um sonho tornar-se-á rapidamente num pesadelo. A decadência social acentuar-se-á. Ficaremos mais estúpidos. A igualdade universal que nos impingem será, na verdade, a maior desigualdade alguma vez registada na humanidade. Porque, não esperem que os que sabem o que virá, os que comandam a IA - pelo menos até à singularidade ser atingida - simplesmente abandonarão tudo e passarão a viver com o RBU. E ainda bem que assim é. Melhor é ser liderado por um humano altamente poderoso do que por uma máquina. Mas, por que é que ficaremos mais estúpidos e haverá uma decadência social? Simplesmente porque não haverá incentivo a nos esforçarmos e porque procuraremos avidamente qualquer coisa que nos tire do marasmo a que estaremos sujeitos. Qualquer propósito de vida ficará reduzido à existência com o risco acrescido de perdermos liberdade individual inclusive de culto a Deus a nosso Senhor.
Se pensaste no filme Matrix depois de leres estes últimos parágrafos pode ser um sinal positivo de que não estás totalmente alheado e que, de alguma forma, uma luz de emergência, ainda que ténue, se acendeu em ti. Parabéns!
Termino com um dilema. Enquanto líder de uma organização com quase 100 trabalhadores um dilema se me coloca: invisto em IA aumentando a produtividade a níveis incríveis e assim o lucro, não me preocupando com a dificuldade que é gerir pessoas, acima de tudo as estúpidas, ou sigo contra a maré fazendo jus às inquietações que se me apresentam pelo rumo que a sociedade está a tomar e que piorará com o aumento da IA nas nossas vidas, mantendo uma organização de humanos para humanos?
Meus caros amigos, esta carta tem como único propósito fazer-vos refletir acerca do estado actual das coisas e do que aí poderá vir. Digo poderá porque a minha confiança na humanidade ainda não morreu, pelo que o que parece uma inevitabilidade ainda pode ser travado.
Um abraço.