Deus, há.

10-03-2025

O mistério da vida é tal e qual como se nos apresenta: um mistério. 

Etimologicamente, a palavra mistério, que deriva da palavra latina mysterium, que por sua vez deriva da palavra grega mystērion, tem hoje um significado diferente do que tinha na Grécia antiga. Naquela época, mystērion, estava relacionado com os cultos e ensinamentos secretos passados a iniciantes. Não se tratava necessariamente de ensinamentos teológicos, mas de alguma forma místicos e apenas acessíveis a alguns - não nos podemos esquecer que na Grécia antiga, o berço da democracia, os cidadãos não eram tratados todos por igual (para saber mais estudar Politiká de Aristóteles). Com o tempo a palavra mistério assumiu o significado que lhe damos actualmente: algo desconhecido, oculto, difícil de entender.

Se a palavra mistério serve, no contexto histórico actual, para definir o desconhecido, nomeadamente em relação à vida, ao seu propósito e ao espiritual, talvez a palavra mais indicada seja a palavra grega arché, que pode ser traduzida por fundamento - que fique claro que as palavras gregas são interpretadas/traduzidas de diferentes formas consoante o tradutor e o contexto. Parece-me adequado utilizar a palavra arché para o que me traz aqui hoje.

Todos nós, em algum momento, já nos debatemos com pensamentos transcendentais. É algo natural que faz parte de um ser consciente como nós. Porém, tais pensamentos são, muitas vezes, de tal modo imersivos que nos sugam energia e nos colocam num processo depressivo. Na verdade, o que nos coloca num processo depressivo é a ausência de uma resposta objectiva e decisiva. Procuramos - é da nossa natureza - clareza nas coisas, e por isso, quando nos deparamos com situações que transcendem a nossa capacidade de entendimento, tendemos a fazer uma de duas coisas: ignoramos e seguimos em frente ou mergulhamos mais fundo na expectativa de conhecer mais e, quiçá, atingir a resposta que todos os filósofos procuram desde sempre em relação ´à existência. Perdoem-me a franqueza, mas qualquer um dos caminhos escolhidos é limitado.

No primeiro caso implica assumir a nossa ignorância - uma atitude bastante nobre se for tomada em consciência e não por preguiça - de que alguns temas estão para além do nosso conhecimento e capacidade intelectual. No segundo caso implica assumirmos que vamos procurar indefinidamente; saberemos mais, conheceremos mais, aprenderemos mais, mas não atingiremos o objectivo. Em qualquer um dos casos o mistério permanecerá e o arché não será desvendado.

Todos estes pensamentos são especialmente resultantes de um momento específico: a morte. Para uns a morte é o fim, momento a partir do qual haverá o nada - as palavras não são capazes de descrever o nada já que o simples facto de utilizar o verbo haver assume que há alguma coisa; por outro lado o nada não é objectivamente concebível por nós. Para outros haverá a vida eterna: o desapego do biológico, da vida terrena, e a passagem para uma dimensão superior onde a alma viverá para sempre em harmonia e felicidade incalculáveis. Seja qual for a crença do leitor, a morte é o principal motivo de tais questões transcendentais. 

Tenho uma má notícia para os leitores: o mistério jamais será resolvido. Mas também tenho uma boa notícia: Deus, há.

Este pretende ser o mote para o meu próximo livro. Estou em pesquisa intensa, estudo constante, reflexões complexas que, algumas vezes, me sugam a energia de forma intensa. Há alguns anos atrás não seria capaz de escrever sobre este tema de forma segura, com confiança e tranquilidade. Primeiro por falta de conhecimento e capacidade de me expressar de modo a que os leitores percebessem a mensagem. Mas também porque a minha mente não estava preparada para refletir sobre temas tão complexos e envolventes como este.

Se este é um tema que lhe interessa e quer discuti sobre ele, por favor contacte-me.

Um abraço.