Economia num mundo com IA
Economia num mundo com IA
Tenho vindo a refletir acerca de como será o mundo quando a inteligência artificial (IA) estiver generalizada. Já tive oportunidade de expressar a minha visão acerca dos benefícios e dos malefícios da IA no meu livro Inteligência artificial: benção ou maldição? (Freitas, 2025), mas agora reflito acerca de como será a economia quando a IA se generalizar.
Qualquer tecnologia disruptiva cria oportunidades e desafios. Foi assim com a agricultura, com o advento das máquinas a vapor na altura da revolução industrial e será assim com a generalização da IA. As duas primeiras tecnologias trouxeram benefícios enormes para a sociedade permitindo o desenvolvimento civilizacional a níveis anteriormente impensáveis. E, se é certo que criaram prejuízos a alguns cidadãos, também é certo que o benefício geral à sociedade superou largamente quaisquer prejuízos causados. Analisando à luz dos utilitaristas foi um excelente resultado.
Analisando a história temos todos os incentivos para acreditar que com a generalização da IA também será assim. Embora esta seja uma tecnologia altamente disruptiva, talvez muito mais do que as anteriores, não há uma razão histórica para assumirmos uma inadaptação da sociedade à mesma. Importa não esquecer que a maior disrupção da IA não é a tecnologia em si, por mais disruptiva que seja, mas a rapidez com que se desenvolve e a abrangência que tem, mexendo com vários temas, disciplinas e profissões.
Tal como os ludistas na época da revolução industrial temiam que as máquinas lhes tirassem os empregos, haverá quem actualmente pense que a generalização da IA lhe fará o mesmo. É um receio legítimo e que deve ser abordado, porém, não é esse o meu principal receio.
Neste pequeno texto pretendo refletir acerca dos impactos que a generalização da IA trará à economia, a nível individual, para a vida de cada um de nós, a nível nacional e a nível mundial. Tentarei abordar estas três dimensões de forma clara e simples ao longo de poucas páginas e à luz das teorias económicas e políticas mais conhecidas e consensuais.
Economia de mercado e economia centralizada
Antes de mais considero importante distinguir entre economia de mercado e economia centralizada. De forma simples poderemos assumir a economia de mercado como capitalismo e a economia centralizada como socialismo. Assumo que ambas almejam o mesmo: o melhor para os cidadãos. Porém, não é claro que ambas consigam atingir de igual modo o objectivo comum. Em boa verdade há benefícios em qualquer uma das correntes económicas que abordarei com mais pormenor, mas também malefícios.
A economia centralizada está intimamente ligada à ideologia política socialista. O socialismo defende uma participação activa do estado e uma redistribuição da riqueza de modo mais ou menos igualitário. A ideia por detrás do socialismo é extremamente atraente. No final de contas o estado propõe-se a distribuir a riqueza de forma igualitária para que, deste modo, não exista concentração de riqueza, por um lado, nem pobreza, por outro, permitindo assim que todos os cidadãos vivam em plenitude com o bolo económico total gerado pelo país.
Qualquer que seja a corrente ideológica do leitor, acredito que o socialismo, analisando à luz da sua ideologia, é altamente atraente para todos. No fundo, a ideia é que todos os cidadãos colaborem em conjunto para um bem maior e para uma sociedade mais equitativa, não de acordo com o mérito nem o esforço de cada um, mas de acordo com a dignidade humana de cada cidadão. Portanto, se o cidadão A é altamente produtivo e consegue gerar riqueza, mas o cidadão B é menos produtivo – qualquer que seja a razão – então o estado serve como fiel da balança repartindo por ambos a criação de valor de ambos. Poderíamos resumir este princípio através de uma equação matemática muito simples. Sendo A' a produção do cidadão A, B' a produção do cidadão B e X a produção de ambos, teríamos que: X = A' + B'. Numa divisão socialista os dois cidadãos teriam metade de X, portanto X/2.
Com base nisto, podemos assumir, sem qualquer receio de estarmos a concluir percepitadamente, que o socialismo desvaloriza o mérito, o esforço e a dedicação enquanto que valoriza todos os cidadãos na justa e igual medida da sua essência humana.
A economia centralizada é, contudo, mais do que apenas uma distribuição de riqueza. Numa economia centralizada o estado assume o papel de administrador das capacidades produtivas, de alocação de recursos e de redistribuição da riqueza. Podemos assumir o estado de uma economia centralizada como um grande grupo económico sem acionistas, com interesses em várias áreas de negócio que gere o seu negócio, não com o objectivo do lucro, mas com o objectivo de produzir o suficiente para que todos os seus trabalhadores vivam de igual modo, com os mesmos recursos, apenas com o que necessitam: sem fome e sem luxos. Portanto, a economia centralizada não valoriza a propriedade privada e abnega a criação de riqueza individual.
O leitor não pode esperar ser rico numa economia centralizada. Mas estima-se que não passe fome. Pese embora esta última parte ainda esteja para ser provada.
No outro oposto temos a economia de mercado. Na economia de mercado é valorizado o mérito, o esforço individual e a propriedade privada. Além disso é valorizada a criação de riqueza. Entende-se, e bem, que um cidadão que gere riqueza deve ser valorizado porque permite que o bolo global aumente.
Se analisarmos as diferenças entre uma economia de mercado e uma economia centralizada, sem preconceitos, somos levados a acreditar que a segunda é muito mais justa e que, no final, todos os cidadãos estarão melhor. Um utilitarista admitiria isto assumindo que não haveria ricos nem pobres e que todos seríamos iguais ao contrário do que acontece numa economia de mercado em que as clivagens entre ricos e pobres sucedem.
Sim, o socialismo é atrativo. E é-o principalmente para quem se esforça menos, se dedica menos e, no final, teria menos, se não fosse a redistribuição de riqueza promovida pelo estado central. Mas o socialismo não funciona e o que acontece num país socialista, e ainda mais numa economia centralizada, é que o bolo económico diminui e, no final, todos ficamos mais pobres – porém, se tudo correr bem, não passaremos fome.
Pegando na equação matemática que utilizei alguns parágrafos atrás, numa economia de mercado teríamos o seguinte: X = A' + B', pelo que A = A' e B = B'. Sendo que não há nenhum estado que funcione sem dinheiro dos contribuintes e que, de forma mais ou menos intensa, apoie os mais frágeis, temos que assumir os impostos – vamos assumir que Y são impostos e Z é a taxa de imposto. Neste caso teríamos: X = A' + B', sendo que Y = ZA', pelo que A = A' – Y e B = B' + Y.
(Estas equações são demasiado simplistas para representarem a realidade, mas o o objectivo é simplificar o funcionamento de uma economia, assumindo aqui apenas três intervenientes: o estado e dois cidadãos. Embora simplistas atendem ao objectivo.)
Economia de mercado – resumo histórico
Talvez um pouco de história permita perceber por que é que a economia de mercado é criadora de valor, de inovação e de riqueza geral enquanto que a economia centralizada é criadora de pobreza.
Há muitos milénios atrás as comunidades de seres humanos eram pequenas e frágeis. Primeiramente apenas recoletores e um pouco mais à frente também caçadores, não era viável que uma comunidade fosse constituída por muitos elementos. Além disso cada comunidade necessitava de territórios bastante alargados que lhe permitisse colher os frutos e caçar os animais necessários para a sua sobrevivência. Admito que se vivesse numa espécie de socialismo arcaico em que a colaboração de todos era indispensável, mas todos tinham direito a um pedaço do bolo. A cooperação era indispensável para a sobrevivência do grupo.
Depois, com o surgimento da primeira grande revolução tecnológica, a agricultura, as comunidades de seres humanos passaram de nómadas para comunidades agrícolas fixas. O domínio da agricultura e da pastorícia permitiram que as comunidades crescessem e se fixassem em pequenas comunidades, cada vez maiores e mais auto-sustentadas. A revolução agrícola foi a primeira grande disrupção tecnológica a que assistimos há cerca de dez mil anos.
Com a agricultura e a fixação das comunidades começaram a surgir as primeiras propriedades privadas. Já não se vivia numa comunidade socialista, em que tudo era de todos, mas passou a viver-se numa comunidade que admitia a propriedade privada, fossem terras aráveis, animais domesticados ou habitações permanentes.
Pese embora possa parecer uma mudança pouco relevante, a fixação das comunidades permitiu o surgimento da propriedade privada e com isso a inovação e a especialização. Já não eram todos caçadores recolectores; passamos a ter agricultores, artesãos, pastores e tantas outras profissões especializadas que promoviam o desenvolvimento da comunidade, a especialização e a inovação.
Importa referir que o surgimento da ideia de propriedade privada foi o que permitiu o desenvolvimento das comunidades. Agora havia um incentivo para que um cidadão se esforçasse. Era claro que quanto maior fosse o esforço e a dedicação melhor seria a sua condição e qualidade material de vida. Numa época em que o trabalho era essencialmente braçal, mais trabalho significava mais bens – entenda-se que, nessa época, os bens seriam terras aráveis, animais domesticados e habitações.
Saltamos um pouco mais na história até ao momento em que se iniciaram as primeiras trocas comerciais. Se uma comunidade tinha batatas e outra tinha pepinos, o comércio surgiu como forma de troca de bens entre as comunidades. E neste momento a ideia de mercado livre iniciou-se. Ora, se as batatas eram mais fáceis de produzir e as havia em maior quantidade, ao contrário dos pepinos, então a troca justa não seria uma batata por um pepino, mas um conjunto de batatas por um pepino. Surgiram as primeiras trocas e os primeiros mercadores que promoviam as trocas de bens guardando para si um lucro pelo seu trabalho. Tinha surgido o primeiro trabalho não braçal – não se assuma, pelo que acabo de escrever, que este foi literalmente o primeiro trabalho não braçal. A velha máxima de que mais trabalho significava mais bens alterou-se já que um mercador poderia sustentar-se sem produzir nada, mas apenas promovendo o comércio entre diferentes comunidades.
Algumas centenas de anos mais tarde, com o surgimento da moeda, primeiro substanciada em bens raros e depois no papel-moeda, as trocas intensificaram-se. O comércio passou a ser parte fundamental da economia das comunidades já que a auto-suficiência não era necessária para que a vida fluísse com tranquilidade e felicidade: o comércio cumpria esse papel de garantir a cada comunidade o que ela necessitava ou desejava.
O resto é história, e todos conhecemos. As comunidades cresceram em quantidade de pessoas e multiplicaram-se; determinadas comunidades especializaram-se em determinados bens; o comércio floresceu; comunidades maiores formaram reinos, cidades, países e impérios.
Actualmente o comércio é parte fundamental da economia. Não só é uma forma para que todos, em qualquer parte do mundo, tenham acesso aos bens que necessitam ou desejam, como é criadora de riqueza pela mais-valia que gera.
Nem sempre os mercadores foram bem recebidos. Muitas vezes eram considerados usurpadores e até feiticeiros. A ideia de que alguém que não produzisse pudesse beneficiar com uma troca era considerada por alguns como uma usurpação: um lucro imerecido. E passou-se o mesmo, ainda no século XX, com os banqueiros. Que ideia essa de emprestar dinheiro a quem dele necessita cobrando um juro pela sua utilização!
Certo é que a garantia da propriedade privada permitiu que as comunidades se desenvolvessem, criassem valor e prosperassem, tendo o mesmo sucedido com o comércio que foi, e continua a ser, uma excepcional fonte de criação de riqueza.
Karl Marx disse: "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades." Podemos resumir esta frase numa máxima que encaixa bem com o socialismo: a produção é para consumo, não para lucro.
Refletindo acerca do último parágrafo podemos afirmar que o ideal socialista tem erros que impedem um país de prosperar. Desde logo a sua visão míope impede-o de perceber o valor criado pelo comércio: a geração de lucro é criação de valor para o país e portanto deve ser valorizada. Por outro lado, a desvalorização da propriedade privada, desvalorizando o esforço e a dedicação individual, desincentiva o trabalho árduo criador de valor, já que, mesmo sem dedicação, o cidadão terá acesso a uma parte do bolo, ainda que seja pequena. Já para não falar da centralização da economia no estado que impede o bom funcionamento da mesma uma vez que a gigantesca máquina estatal é incapaz de conhecer tão bem como um agente privado mais pequeno as necessidades do mercado e por isso cria ineficiências brutais que não geram valor acrescentado.
Outra frase famosa de Marx e Engel, no seu Manifesto comunista, é esta: "A produção burguesa não existe sem criar constantemente o proletariado." Perdoem-me os leitores, mas acredito nesta frase, porém não com o valor negativo que Marx e Engels lhe quiseram dar. A minha visão vai de encontro à de Hayek, expressa no seu livro Arrogância fatal (Hayek, 1988), quando diz que de facto o capitalismo cria proletariado e ainda bem; caso contrário não haveria emprego.
Economia de mercado funciona
Depois da leitura anterior, espero que esteja claro para o leitor que o socialismo, embora altamente sedutor, não funciona. A única forma de funcionar seria se os humanos não tivessem determinados sentimentos e se regessem todos pelos mesmos valores. Ou seja, se não houvesse inveja, cobiça, vontade própria, e por outro lado houvesse um sentimento de comunidade altamente vincado e seriedade ao mais alto nível em todos os seres humanos, talvez o socialismo pudesse funcionar. Porém, como tal não é possível – e ainda bem, já que a diversidade dos homens é linda e causadora de inovação – o ideal socialista é criador de pobreza no sentido em que nivela a riqueza por baixo. Por definição não há ricos no socialismo e portanto, os criadores de riqueza, ao não existirem, não têm como aumentar o tamanho do bolo económico, o que implica uma diminuição constante e regular do mesmo até ao nível da sobrevivência básica, espera-se – embora a história nos mostre vários exemplos de economias socialistas com economias centralizadas que nem sequer o mínimo de dignidade permitiram aos seus cidadãos que passaram fomes e outras privações terríveis.
No lado ideológico oposto temos a economia de mercado, que funciona. Pode não ser tão atraente, à primeira vista, principalmente para aqueles que esperam um estado paternalista e cuidador em vez de valorizarem o trabalho e o mérito. Porém, rapidamente, uma economia de mercado se torna atraente.
Considero que o mais importante numa economia de mercado é a liberdade. E sendo a liberdade uma característica da economia de mercado – não é um talvez, mas uma garantia sem a qual tal sistema económico não existe, por definição – qualquer cidadão tem a possibilidade de se libertar das amarras da pobreza.
Vale a pena fazer um parênteses para clarificar que as amarras da pobreza podem ser bastante fortes e de difícil libertação. O contexto social em que uma criança nasce e vive pode ser condicionante. A impossibilidade de receber alimentação adequada nos primeiros anos de vida, cuidados de saúde e educação, bem como a vivência num contexto social complexo, sem amor, com crime, drogas e outras maleitas tão comuns nos guetos, tem uma força terrível que pode impedir alguns de se libertarem. Por isso, é essencial que uma economia de mercado não se esqueça dos mais frágeis: para bem do indivíduo e para bem da sociedade. Para isso, é fundamental que o estado esteja capacitado para apoiar as crianças e os jovens em contextos desfavorecidos, não dando esmola, mas dando educação, permitindo, deste modo, o seu desenvolvimento intelectual. Quanto aos menos capazes por limitação de saúde e aos idosos, é essencial haver um estado cuidador que não permita que a pobreza os atinja e exclua.
Findo o parênteses, que me parece ser de fundamental explicação, qualquer indivíduo se pode libertar das amarras da pobreza vivendo numa economia de mercado. Desde logo pelas oportunidades que esta cria e pelo aumento do bolo económico. Os mais céticos poderão tentar argumentar que o aumento do bolo económico não beneficia todos, ou pelo menos, não de igual forma. E de, algum modo têm razão, embora não exatamente como podem imaginar.
Quando o bolo económico aumenta é absolutamente verdade que nem todos beneficiam de igual modo. Isto é facilmente observável numa medida de avaliação económica entre países tão comum como o PIB per capita. Este rácio, que nada mais é do que o PIB de determinado país dividido pelo seu número de habitantes, esconde, como qualquer média, os extremos: os mais pobres e os mais ricos. Digamos que o PIB de um país com 100 habitantes é de 1M€. A média por habitante, portanto, o PIB per capita, é de 10K€. Sucede que neste país cinco indivíduos detêm 50% da riqueza. Mesmo assumindo que os outros 50% da riqueza são detidos igualitariamente pelos restantes 95 habitantes, temos que cinco cidadãos detem 500K€, portanto 100K€ por cada um, enquanto que a restante população detem pouco mais de 5K€ por indivíduo, portanto, pouco mais de metade do PIB per capita. Por oposto, numa economia centralizada, a divisão de riqueza seria perfeita e cada cidadão teria 10K€ de riqueza.
Sucede que, para criar riqueza é indispensável que haja investimento. E é aqui que entra o problema da economia centralizada e a beleza da economia de mercado. Numa economia de mercado alguns indivíduos terão capacidade de investimento porque, ao contrário do que sucede numa economia centralizada, têm excesso de riqueza, ou melhor dizendo, não consomem toda a sua riqueza. Este investimento gerará mais riqueza e o aumento do bolo económico. Pese embora esse bolo não seja dividido igualitariamente por todos os cidadãos a priori, todos ficarão melhores: não porque o bolo aumenta per si, mas porque mais impostos serão pagos, que permitirão um aumento do investimento do estado em áreas como a saúde e a educação, mais postos de trabalho criados e, consoante a economia cresce, salários mais altos serão pagos pela extraordinária lei da oferta e da procura.
Não menos importante do que permitir a criação de riqueza, a economia de mercado premeia o mérito. Numa economia de mercado, por definição livre, está ao alcance de todos – atrás já esclareci que em algumas situações é necessário um apoio para a libertação das amarras da pobreza – que pretendam aumentar a sua riqueza, através do trabalho e da dedicação, fazê-lo. Portanto, ao contrário do que o socialismo diz, a economia de mercado é muito mais justa do que uma economia centralizada já que premeia o mérito.
(Abro este parênteses para falar, rapidamente, dos herdeiros. Estes, que tiveram a sorte de nascer filhos de pais ricos, nada fizeram para herdar riqueza. Porém, taxá-los, como defende o ideal socialista, é imoral. Desde logo é imoral porque os progenitores já foram taxados pela riqueza que deixaram aos filhos. E não nos podemos esquecer que ser herdeiro não é sinónimo de vida farta para sempre. Se os respectivos não se esforçarem e não tiverem mérito, mais tarde ou mais cedo, dilapidam a riqueza herdada.)
Concluindo, a economia de mercado já provou ser criadora de riqueza. A valorização da propriedade privada, do esforço individual, do trabalho árduo e do mérito, incentivam o investimento que permite criar riqueza aumentando o bolo económico global e beneficiando todos.
IA nas economias centralizadas e de mercado
Entramos agora no tema fundamental desta pequena reflexão. Como se comportarão as economias centralizadas e as de mercado num futuro que se antecipa repleto de inteligência artificial? Iniciarei pela economia centralizada.
Uma economia centralizada absorve as capacidades produtivas para o estado. Acresce que, neste tipo de organização económica sempre se vive em ditadura – não há qualquer exemplo de um estado comunista ou socialista, que valoriza a centralização das capacidades produtivas, que não seja um estado ditatorial, porém, há estados ditatoriais que que não são socialistas e que não promovem a economia centralizada. Aliás, não vejo forma de uma economia ser centralizada sem que haja apenas e só um líder ditatorial a comandar o estado.
No passado foram vários os países que adoptaram este tipo de organização económica. O mais referido, e provavelmente o mais duradouro, foi a antiga união soviética (URSS) que durou quarenta e sete anos, desde 1944 até 1991, nos últimos anos já moribunda – Cuba também é um exemplo, porém, dada a sua pequena dimensão não serviria tão bem o propósito desta reflexão. Na URSS a economia era centralizada. Isto implicava um conjunto gigantesco de burocratas que definiam o que produzir e em que quantidade – já abordei este tema anteriormente pelo que não me vou repetir. Quase sempre a oferta não correspondia à procura e poderia haver excesso de sapatos e falta de cenouras. Sucede que, como já disse antes, neste tipo de organização económica está implícita uma liderança ditatorial que controla os movimentos dos cidadãos e os meios de comunicação social retirando a liberdade individual, mas priviligiando a ordem comum. As tarefas de controlo civil eram intensas tendo os serviços de informação de trabalhar arduamente para impedir dissidentes. Mas era um controlo analógico, repleto de papéis e arquivos que apenas um exército de burocratas podia organizar e controlar – mais ou menos.
A IA permitirá que o controlo da população seja muito mais eficiente e eficaz. Já não são necessários milhões de burocratas, mas apenas um punhado de engenheiros informáticos que protejam e escrevam os códigos informáticos e depois controlem a máquina. De algum modo isto já acontece numa região do interior da China, em Xinjian, para controlo dos Uigures – embora o partido comunista chinês diga que se trata apenas de uma questão de segurança. Nessa região há milhões de câmaras de vigilância que identificam esta etnia de modo a que, se algo contra os ideais do partido suceder, rapidamente se possa tratar do assunto.
Numa economia centralizada a IA apresenta várias vantagens. Desde logo no controlo da população. Mas em termos económicos também, já que será muito mais eficaz e eficiente a definir o que produzir e em que quantidade tornando assim o sistema menos falível, menos corrupto e mais adequado ao "bem-estar" dos cidadãos. Talvez os cidadãos se sintam bem vivendo numa ditadura comunista já que, espera-se, não haverá fome nem falta dos bens necessários à sua vida; os erros de gestão cometidos pelos milhões de burocratas da antiga URSS já não acontecerão e todos poderão viver mais ou menos bem: pobres, mas talvez felizes.
O desenvolvimento da IA será uma ferramenta extraordinária para a criação de estados totalitários e comunistas já que as suas valências permitirão uma harmonia social inatingível com os milhões de burocratas de que a antiga URSS foi exemplo. E como diziam os romanos, apenas é necessário panem et circenses para a harmonia da população e do estado.
A IA será uma ferramenta importantíssima para a manutenção ou o surgimento de estados totalitários com economias centralizadas. Isso é mau por si, mas talvez os cidadãos, desiludidos com os políticos actuais, não se importem de abdicar da sua liberdade para viverem harmoniosamente e em segurança.
Falemos agora do impacto da IA numa economia de mercado que, felizmente, é a mais comum – não nos podemos esquecer dos estados híbridos: totalitaristas e com uma economia centralizada até certo ponto, não impedindo, contudo, a propriedade privada, como é o caso da China.
Num estado que se rege pela liberdade individual e a propriedade privada, numa economia de mercado, os desafios e as oportunidades que a IA trará são significativamente diferentes dos que trará a um estado totalitário de economia centralizada. Talvez o desafio mais falado pela generalidade da população seja o da perda de empregos. E pese embora essa seja uma realidade potencial, não é, de todo, o principal problema que a IA trará.
Primeiramente os benefícios. Creio que não é necessário entrar em muito detalhe já que a maioria dos leitores conseguirá perceber facilmente os benefícios da generalização da inteligência artificial. Apenas para nomear alguns: é bastante provável que se aumente a eficiência e a eficácia da gestão dos serviços públicos, dos processos produtivos e do ensino ao mesmo tempo que se aumentará a inovação – ou pelo menos a rapidez no desenvolvimento de ideias – e se libertará os trabalhadores para mais tempo de ócio. Não nos podemos esquecer que na maioria destes países se vive um drama que é o envelhecimento da população, e também aqui a IA será benéfica, desde logo porque permitirá que mais trabalhadores sejam integrados nas redes de cuidados continuados aos mais velhos pela libertação de outros trabalhos.
Digo, sem receio de estar errado, que os trabalhos que se perderão não serão um problema em si. Por um lado porque outros postos de trabalho serão criados, inclusive alguns inexistentes há data, mas também porque será uma forma de aumentar o tempo de ócio dos cidadãos. Em relação a esta última parte, contudo, precisamos de estar atentos. É que, embora a libertação do trabalho possa ser uma mais-valia que a IA trará, terão que ser encontradas formas de financiar os sistemas de segurança social e de pelo menos manter, de algum modo, a qualidade de vida da população. Como é que isto será feito? Haverá certamente mais do que uma forma, mas vou debruçar-me na que considero ser a mais interessante e eficaz.
Financiar as necessidades do estado num futuro repleto de inteligência artificial, que diminuirá o número de empregos quer em valor absoluto quer em percentagem da população, é desafiante. Será necessária muita criatividade e alteração de políticas económicas e fiscais para o fazer. Abordei, ao de leve, este tema no meu livro. E o que considero ser a forma mais eficaz de resolver este desafio é a taxação da produtividade das máquinas. Taxar as máquinas em si, por peça, não é suficiente nem permitirá ultrapassar o desafio de financiamento do estado. Temos que ser inovadores e encontrar uma forma de taxar a produtividade das mesmas.
A taxação das máquinas, à peça, é insuficiente, por maior que seja o imposto, pela simples razão de que não é regular nem assume o desemprego criado. Tampouco podemos assumir um aumento dos rendimentos produtivos, dos lucros, porque há sempre o risco de serem insuficientes para cobrir as necessidades de financiamento do estado. Considero, por isso, que a forma mais séria, justa e eficiente é taxar a produtividade das máquinas. E é justa para ambos: para o estado e para as empresas. Para o primeiro porque assegura financiamento proporcional à produção do país. Para as segundas porque é imediatamente incorporado nos custos produtivos podendo ser assumido como um custo fixo - embora em proporção à sua produtividade - de simples cálculo e independente da rentabilidade.
Alguns economistas assumem que o rendimento básico universal é a solução ideal para o desafio do desemprego criado pela IA. Embora entenda a ideia base de distribuir dinheiro num montante suficiente para uma vida digna, a todos os cidadãos, entendo que os problemas que criará serão muito superiores aos benefício não resolvendo o problema. Desde logo porque isso implicaria tornarmo-nos, de certo modo, países socialistas, na mais básica das suas ideologias. Desconsidero esta como uma boa opção não por qualquer indisponibilidade de alteração dogmática, mas porque tal desincentiva a dedicação dos cidadãos para além de que previligia a incompetência – não é, de todo, uma medida justa. Por outro lado porque tal sistema é um potencial causador de inflação, já para não falar da dívida soberana. Ainda que o rendimento básico universal fosse uma solução, mantém-se o desafio do financiamento. Portanto, mesmo que esta seja a medida adoptada pelos estados para impedir que os desempregados socumbam à pobreza, tem que ser encontrada uma forma de financiar tal medida.
Do lado do financiamento do estado considero que a taxação da produtividade das máquinas é a solução mais interessante. Eventualmente não poderão ser taxadas todas as indústrias da mesma forma já que cada qual tem níveis de produtividade diferentes e produz bens diferenciados e mais ou menos relevantes. Se assumirmos a construção, por exemplo, que é altamente intensa em mão-de-obra e com níveis de produtividade por trabalhador baixos, e a compararmos com o sector da tecnologia que tem níveis de produtividade por trabalhador elevados, as taxas a aplicar pela produtividade das máquinas teriam que ser necessariamente diferentes. Mas este é um tema posterior à adopção da medida pelos estados e que certamente será facilmente resolvido.
Porém, mantém-se o desafio de como manter a população desempregada com rendimentos que permitam uma vida digna. Certamente que este é o principal desafio e que terá, necessariamente, que ser decidido pelos estados. Neste caso a intervenção do estado é essencial já que a mão invidível de Smith não terá condições para resolver o desafio. Já não se trata de empenho, dedicação e trabalho para aumentar os rendimentos – ou melhor, não só. Trata-se de simplesmente não haver postos de trabalho para todos, mesmo os que querem, activamente e com dedicação, trabalhar.
Uma das soluções para o desafio dos rendimentos poderia ser a criação de postos de trabalho em áreas humanísticas. Por exemplo, desenvolver programas de formação dos desempregados que lhes permitisse ganhar competências em psicologia, antropologia, filosofia, arte, e outras que tais. Desta forma poderíamos criar centros de desenvolvimento pessoal, a vários níveis, e desde modo criar um ecosistema dinâmico de desenvolvimento das capacidades intelectuais dos cidadãos ao mesmo tempo que se criavam postos de trabalho. Pese embora possa parecer uma ideia semelhante à atribuição de um rendimento básico universal, na verdade trata-se da criação de novas valências que desenvolvem os cidadãos e, no fundo, de novos postos de trabalho. Na prática, sendo actividades não geradores de valor económico em valor suficiente, teriam que ser sustentadas pelo estado. Porém, é absolutamente diferente atribuir um rendimento a alguém que pode escolher passar os seus dias a ver televisão ou a alguém que tem que se desenvolver para auferir esse rendimento. Por um lado valoriza o empenho e a dedicação e por outro valoriza a dignidade humana.
Portanto, a ideia do rendimento básico universal não me convence. Porém, a criação de novos "empregos" que permitam a alocação dos trabalhadores que não encontram, de forma alguma, trabalho porque simplesmente deixou de existir, parece-me ser uma ideia com potencial já que o recebimento de um salário depende de uma actividade a desenvolver que gera valor – embora não em quantidade suficiente para sustentar uma economia. Por outro lado, a taxação da produtividade das máquinas parece-me ser a forma mais eficaz de garantir os recursos necessários ao estado para a subsidiação dos "empregos" pouco produtivos e restantes gastos e investimentos estatais.
A IA trará grandes benefícios, mas também trará desafios que devem ser tidos em consideração. Não acredito que esta passagem, em que as máquinas tomam a maioria dos empregos dos trabalhadores, esteja próxima e muito menos que seja imediata. Contudo, considero ser muito importante que os políticos estejam atentos ao futuro que parece ser inevitável, encontrando soluções engenhosas e criativas para solucionar os desafios do desenvolvimento generalizado da inteligência artificial.