Rendimento Básico Universal? Uma ideia que esconde muitos perigos.

01-09-2025

Há já vários anos que se fala, e se testa, a ideia de um rendimento básico universal (RBU). Até agora sempre foram feitos testes em pequena escalada e com rendimentos relativamente baixos. Porém, há alguns dias atrás, o Sr Miles Brundage, antigo investigador da OpenAi - empresa que desenvolveu o ChatGpt - veio dizer que um RBU de 10$ mil mensais é atingível e desejável com o avanço da Inteligência Artificial (IA).

EU discordo, e vou explicar porquê.

Primeiramente discordo por ideologia. Considero altamente injusto e pouco sério que alguém receba um rendimento sem trabalho actual ou com base em contribuições passadas. É uma ideia que me causa náuseas só de pensar. Porém, o meu desconforto com o RBU vai para além da ideologia. Por momentos deixarei a ideologia de parte e focar-me-ei nos perigos reais de um RBU.

A ideia de um RBU iniciou-se há muitos anos. Já no século XVIII o filósofo Thomas Paine defendeu-a pelo simples facto de os cidadãos serem membros da sociedade, como uma compensação pelo uso comum da terra e dos recursos naturais. Porém, só mais recentemente é a que ideia de um RBU ganhou força e alguma popularidade, com base em duas ideias centrais: a redução da desigualdade e a solução para o desemprego que a automação do trabalho trará. Pese embora pareça uma ideia interessante - quem é que não quer uma sociedade mais igualitária, sem pobres? -, a verdade é que esconde resultados perversos, principalmente com o advento da IA.

O desenvolvimento da IA e a entrada desta nas nossas vidas tem, certamente, coisas boas. Mas muitas mais negatividades, como já tenho vindo a escrever, nomeadamente no meu livro: Inteligência Artificial, Bênção ou Maldição, Guerra e Paz 2025. Um dos problemas que considero ser extremamente grave é a estupidificação do ser humano. A ideia é simples: se a IA nos resolve os problemas, nos apresenta conclusões acerca do que queiramos saber, qual é o incentivo a estudar e desenvolver competências intelectuais? Já vemos isso actualmente, quando nos confrontamos com a primeira geração que é menos inteligente do que os seus pais - sugiro a leitura do livro do Sr Michel Desmurget, neurocientista francês, A Fábrica de Cretinos Digitais. Isto é inédito e é extremamente grave. Alguns podem dizer que é assim porque atingimos nossa máxima capacidade intelectual. Nada mais longe da verdade. Sucede é que o incentivo ao estudo e ao desenvolvimento intelectual é cada vez menor, e será ainda mais com o desenvolvimento da IA.

Com base nisto, se aceitarmos, enquanto sociedade, receber um RBU pelo advento da IA, criaremos dois problemas muitos graves que trarão uma factura num futuro próximo. O primeiro é a estupidificação humana, como já disse. Haverá uns poucos que se manterão intelectualmente activos, mas haverá muitos mais que simplesmente aceitarão a esmola e viverão num ócio improdutivo. O segundo é a perda de liberdade, no sentido em que permitiremos que máquinas assumam o controlo da nossa economia e da nossa vida. Acresce que, sucedendo isto, haverá mais desigualdade, menos democracia e menos liberdade. Tudo isto porque aceitamos uma esmola envenenada.

Os poucos que deterão os processos productivos, sejam eles softwares ou activos fixos de produção, serão extremamente ricos enquanto o resto da sociedade será relegada para a miséria. Não apenas a miséria financeira, mas acima de tudo a miséria intelectual.

Aceitarmos um RBU é o mesmo que assumirmos que seremos uns animais de estimação em poucos anos. Não nos iludamos. O RBU é um presente envenenado.

Poderá ler a noticia aqui: https://ca.news.yahoo.com/former-openai-researcher-says-10-155715152.html