Resposta à entrevista do sr Mira Amaral na edição de 10/07/2020 do jornal "Vida Económica"
O título em maior destaque na capa da edição de 10 de julho de 2020 do jornal "Vida Económica", captou de imediato a minha atenção. Primeiramente assumi que fosse uma frase retirada num contexto e que haveria uma explicação plausível para semelhante frase. Depois de ler a entrevista do sr Mira Amaral percebi que, de facto, a linha de pensamento do ex-ministro é desconcerte e míope.
Se existe algo nesta entrevista que chama de imediato à atenção é o facto de em nenhum momento o sr Mira Amaral falar do ambiente e das alterações climáticas. Toda a entrevista é resumida a questões financeiras e económicas e centra-se numa verdade pouco relevante que é o facto de a energia em Portugal ser mais cara do que noutros países.
Sendo verdade que a energia é mais cara em Portugal, não é menos verdade que esse não é um factor relevante para tornar uma empresa descompetitiva (salvo raras excepções). E mesmo que esse fosse um factor de elevada relevância para a competitividade não é de superior importância ao bem maior que é o futuro da humanidade e do bem-estar das gerações vindouras.
O conhecimento que o sr Mira Amaral tem de energia é significativo e sem qualquer dúvida superior ao meu. Certamente que tem razão quando afirma que se investíssemos agora em energias renováveis teríamos um retorno superior sobre o investimento. Também não me restam dúvidas de que os grandes grupos monopolizam o sector com conivência do Estado. Por mais que tudo isto seja verdade, não existe sentido para resumirmos tudo a uma questão financeira e económica.
Temos que assumir responsabilidades e abandonar linhas de pensamento que, se algum dia fizeram sentido, agora já não fazem. Temos que assumir que não se trata de competitividade, ou de quem tem o défice menor ou de quem é campeão de exportação. Trata-se de atingir um bem maior independentemente de perdermos competitividade, aumentar o défice ou diminuir as exportações.
Basta de assumirmos que o crescimento continuo é possível. Não é.
Basta de assumirmos que as empresas boas são as que exportam. Não são.
Basta de assumirmos que a saída de uma crise poderá ser apoiada no hábito e em ideias como a ampliação do porto de Sines para permitir a entrada de petroleiros maiores. Não pode.
Basta de esperarmos por fundos comunitários para investir e tornar as empresas mais competitivas para exportarem para o outro lado do Mundo enquanto recebemos outros bens transacionáveis de fácil produção. Não.
Mais chocante do que as ideias que estão contidas nesta entrevista é o facto de serem transmitidas por alguém com responsabilidade e dever cívico. Alguém que assume que a teoria se aplica sempre na prática. Alguém que devia inspirar, unir e aclarar ideias com futuro.
Tenho 30 anos. Trabalho desde que podia fazê-lo legalmente. Fui ensinado pela minha família e em especial pelo meu pai a não esperar que nos entregassem algo para erguer o que fosse. Giro uma empresa que não foi apoiada por fundos comunitários, que assume uma auto-taxação de 50€ por tonelada de C02 emitida na sua atividade (desde a origem da matéria-prima até ao consumidor), que investe em energias renováveis sem esperar um retorno económico mas porque é nosso dever cívico fazê-lo e que ainda assim apresenta resultados financeiros melhores do que a média do sector e do que os principais concorrentes.
Termino apenas dizendo que nem tudo é economia e que existe esperança num futuro se assumirmos responsabilidades e deixarmos de pecaminizar o passado, utilizando as nossas energias para pensar além de nós, no bem maior.